Imagine-se rico.

Imagine-se muito rico.

Imagine-se muito, muito rico.

Imagine-se muito, muito, muito rico & da high society.

Agora:  ACORDA PRA VIDA POIS TUDO ACABOU.

É um tanto abrupto, eu sei, mas essa foi a sensação que essa película me deixou.

E eu vi o documentário, não o filme.

Lançado primeiramente em 1975 sob a forma de documentário, Grey Gardens, sob a direção dos irmãos Maysles, acabou recebendo um remake com a Drew Barrymore em 2009 (foi muito aclamado pela crítica, mas eu ainda não assisti).

Rodado em East Hampton, um lugar muito nobre nos Estados Unidos, retrata a vida bem decadente de mãe e filha: Edith Bouvier Beale e Edie. Todavia, a temática desse documentário gravita sob dois núcleos: obviamente que importa o retrato da decadência de ambas mas o gatilho para o que originou tal situação na qual se encontravam à época é bem mais premente.

Big Edie e little Edie, como são conhecidas, são parentes de Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis. Na mansão onde moram ocorriam festas, comícios partidários, recepções…era uma vida de muito glamour e luxo e…que acabou. Devido a pouca nenhuma interferência dos irmãos Maysles não se sabe se a situação ocorreu abruptamente ou a degradação foi aos poucos; o que se sabe é que ambas foram praticamente esquecidas pelas importantes figuras que adornam suas paredes.

Esse documentário, apesar de ter sido considerado “pouco relevante” perante a crítica, a MEU VER já começa interessante pois só aconteceu por um fato, digamos, inusitado: elas haviam sido notificadas pela Prefeitura local para limparem a residência ou teriam que abandonar o local – havia uma queixa junto à Vigilância Sanitária devido ao acumulo de detritos e animais. [Agora vamos lá: gente, é uma mansão… mais de mil metros quadrados de área de terreno… se seu vizinho consegue sentir esse cheiro é porque o acúmulo de coisas se tornou um tanto absurdo não?!] De qualquer maneira, é a partir desse ponto que o documentário se inicia.

Contudo, muito mais do que apenas retratar gente-decadente-que-acumula-lixo, esse doc toca uma parte muito interessante da vida psíquica que acomete muita gente DESDE SEMPRE em Hollywood e em todos os USA e, faz umas décadas, no Brasil também. Falo do complexo de celebridade.

Muito antes de celebridade se tornar o pejorativo “ex-participante de reality show”, celebridade é a pessoa que faz coisas célebres, anda em companhia de outras pessoas célebres. Crepúsculo dos Deuses ou O Dia do Gafanhoto retratam muito bem esse tipo de situação (embora se restrinjam aos bastidores hollywoodianos). Fato é que ambas estavam inseridas num estilo de vida que é irreal para a grande parte das pessoas e etérea aos que os que insistem em vivê-la. Assim sendo, acredito que o problema é enxergar essa eterecidade como uma condição para encarar o que ser celebridade perante os demais implica.

Desprovidas [creio eu] de qualquer preparação para encarar a realidade fora desse fake glamour, mãe e filha vão se isolando progressivamente na enorme casa a medida que perdem contato (quase total) com o mundo externo. É uma espécie de renúncia à vida tal e qual ela se apresenta, isso é óbvio. Todavia, há uma incerteza entre o limiar dessa renúncia e a degradação mental das duas – como os diálogos correm sem a inferência dos diretores não há condução de falas; o que sai da boca delas é fantasmagóricamente real à medida que o passado perpassa o presente e se impõe.

Com 99% dos diálogos entre as duas girando em torno de absurdos incompatíveis à realidade dura que as cerca, Grey Gardens merece ser visto não só pelo relato de uma realidade descolada mas, principalmente, pelo retrato utópico pintado pelo esquecimento dessas duas vidas totalmente paralelas ao mundo.

Informações aqui: http://www.greygardens.com/

Para Comprar: http://bit.ly/buygreygardens

Veja a casa das Bouvier restaurada: http://bit.ly/greygrestored

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