Há duas semanas a Imovision colocou em cartaz e eu fui assistir o filme “A Febre do Rato”, produção do cineasta pernambucano Cláudio Assis. Sei que demorei a escrever mas, o fato é que este é um tipo de longa-metragem que demanda tempo: ele é quase uma digestão de cobra.

Febre do Rato é um longa realizado em um preto-e-branco brutal com planos abertos que captam a essência cruel da realidade de Recife. Nele, o criador e autor de um jornal alternativo, o poeta Zizo, (Irandhyr Santos) sobe em um carro e, com um megafone nas mãos, convida a todos que o escutam a tirarem a roupa numa atitude de liberdade. Na primeira cena, ele aparece dentro de um barco, navegando pelo rio poluído e recitando os versos do poeta Miró (popular na capital pernambucana) com o mesmo megafone. Quarenta e cinco anos antes, um jornalista idealista e poeta Paulo Martins (Jardel Filho) têm os olhos fechados e a boca tampada, em “Terra em Transe”. Acrescente-se ainda o fato de Zizo morar no submundo de Recife e ter amigos (todos saídos da malandragem) que se divertem fazendo sexo e perambulando sem rumo certo pela cidade. Zizo se apaixona por Eneida (Nanda Costa) que finge não corresponder aos seus galanteios. Entre os muitos amigos, destaca-se o coveiro Pazinho (Matheus Nachtergaele), que namora um travesti. Agindo como um líder nesse ambiente marcado pela presença de ratos e a chance iminente de leptospirose – “febre de rato” é também uma expressão nordestina que representa a pessoa que está fora de controle –, Zizo recita poemas e busca ser elogiado e admirado por todos; ao mesmo tempo faz duas senhoras idosas de amantes.

Particularmente, creio que há um diálogo claro entre Febre do Rato e Terra em Transe já que as semelhanças entre os filmes não resvala à profissão do protagonista, a opção pelo preto e branco ou ainda ao uso de uma linguagem audiovisual poética (com base em parábolas e metáforas). Mas, principalmente, nas críticas feitas aos impasses do país e a falta de possibilidade de se expressar livremente, pela exclusão social (filme atual); e da repressão política (caso do clássico de Glauber Rocha). Ambos os filmes se intersectam quanto suas temáticas – a busca incessante, e nunca realizada plenamente, da liberdade num país marcado pela opressão. Desigualdade social e falta de espaço para se manifestar politicamente também unem os dois filmes, marcados pela crueza das imagens em preto e branco, e no desenho de alegorias contundentes e que colocam o espectador diante de seus preconceitos e pudores.

Talvez, a única diferença entre os filmes é que, enquanto Glauber Rocha parecia preocupado demais com a esquerda e a classe média de “um país fictício”, Cláudio Assis se encontra no submundo da periferia de Recife e, dessa maneira, traça uma espécie de retrato de geração (genérico).

Assista o trailler dessa obra de Cláudio Assis aqui:

Eu assisti o filme na Reserva Cultural de SP e ele ainda está em cartaz. Veja a programação da sua cidade.🙂

Informações:

https://www.facebook.com/febredoratofilme

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