Medellín é, provavelmente, a cidade mais emblemática da América Latina: consumida pela pobreza de seus habitantes nas décadas de 80 e 90 por abrigar o cartel de um dos mais poderosos e temidos traficantes que o mundo já viu – Juan Pablo Escobar – era considerada “um caso perdido” perante o governo local e demais autoridades. Entretanto, após a morte do narcotraficante e a queda de seu cartel, a cidade se reinventou sendo hoje um dos grandes polos turísticos da Colômbia. Medellín está próspera, é verdade; basta uma busca superficial na internet que acharemos apenas coisas boas sobre a cidade. Contudo, não se engane: a cidade ainda é pobre e, por mais incentivos que tenha recebido, alguns anos não apagarão o rastro de miséria que foi sobressaltado na época de Escobar.

Por ter se tornado uma espécie de cidade turística, Medellín vive hoje uma situação paradoxal já que pratica preços de resort para uma cidade cujo fluxo de turistas é sazonal. Sim, tudo lá é vendido como se a cidade fosse eternamente invadida por visitantes com seu furor consumista: do copo de água ao aluguel de um imóvel, tudo é inflacionado. Exceção aos ricos e aos altos funcionários públicos o restante da população continua à margem deste crescimento da cidade; em Medellín há gente morando em bueiros, acredite.

Toda essa informação acima eu pesquisei num tablet, um modelo Apple de 2010. Estou digitando parte desse texto neste mesmo tablet e estou maravilhada com esse aparelho tecnológico. Infelizmente ele não é meu, é do meu chefe. E, a menos que meu salário dobre no próximo mês (fato que não ocorrerá), não poderei comprar um aparelho destes, mesmo sendo um modelo de 2010….quanto mais o último lançamento. Por quê?! Simples, eu vivo no Brasil.

O Brasil, esse país enorme que já passou por ditaduras, revoluções, elegeu um trabalhador braçal, promoveu impeachtmant, matou dissidentes, acolheu imigrantes, teve inúmeros planos econômicos, caiu, ergueu-se e, ao que parece, agora é mais estável que qualquer economia europeia ainda não conseguiu se livrar do seu maior fantasma do mercado de consumo, o “custo Brasil”.

Assim como Medellín tem um alto custo para seus moradores o Brasil, desde a [re]abertura de sua economia tem praticado um custo abusivo sobre a qualidade de vida de seus habitantes – em especial sobre o ato de consumir. Segundo o antropólogo Roberto da Matta, em entrevista ao site The Next Web alegou que além dos impostos que pagamos (e são altos, muito altos) há uma alta carga cultural nesse ciclo. Entenda: no Brasil compensa para a marca vender um produto eletrônico, por exemplo, por até duas ou três vezes o valor do que ele é cobrado no país de origem. Primeiro porque o lucro é óbvio e depois porque há mercado consumidor para isso. Aqui, o preço que se paga por alguma coisa te eleva à classe X, por exemplo – ainda que momentaneamente.

Obviamente, quem tem um pouco de noção pode pensar “mas que ridículo, gente pensar assim…”; se para você e para mim é ridículo, para muitos não é. Nessa terra aqui bens materiais (e de preferência bem caros) são o realce do status que você é capaz de alcançar. Não que em outros lugares não seja dessa maneira, claro. Todavia, lá fora a diferenciação se dá mais pela quantidade de coisas que você tem e/ou pode trocar (trocar uma casa pequena por uma maior, por exemplo). Vamos pegar um caso simbólico para você entender:

Existe um gift set com todos os filmes do Harry Potter em Blu Ray chamado Wizard´s Colletion que é bem bonito. Ela ainda não foi lançado aqui mas a Warner (distribuidora oficial do filme) já confirmou. Ele é bem completo, vem com muitas horas de extras, tem um acabamento impecável mas está emperrado nas prateleiras norte-americanas e europeias. Motivo?! O preço. Uma caixa dessas está custando U$350 lá fora (veja no site da Amazon). Não parece muito se formos comparar com preços do Brasil mas lá fora os padrões mudam: fora a qualidade impecável o preço deve ser bom, muito bom. Ali as pessoas parecem ter aprendido que não importa se você tem muito dinheiro ou não, não é por isso que você vai pagar o valor que quiserem te impor. É uma questão de consciência critica, acredito.

Como eu disse, essa lindeza ainda vai chegar por aqui. E vai custar TRANQUILAMENTE mais de R$ 1mil. E as pessoas irão pagar numa boa, sem reclamar. O povo brasileiro está acostumado a terceirizar a “culpa” nesse sentido: se o preço é alto, culpa dos impostos; e não da sua recusa em comprar produtos que nem sempre são tão bons por um preço impraticável. O Blog do JC publicou uma crítica sobre esse tipo de ocorrência que todos deveriam ler.

Segundo ainda Roberto da Matta, isso também aconteceria por uma espécie de corrente de contra-cultura no qual todos os indivíduos querem pertencer a algum grupo seleto – não importando o preço a se pagar (em termos financeiros, claro) por esse pertencimento.

Vale lembrar que ano passado a Foxcomm, gigante chinesa que produz toda gama de aparelhos da Apple, se instalou em Jundiaí (SP) e tem grandes incentivos fiscais para isso. Assim como Motorola e outras. E lógico, o incentivo fiscal não visava apenas atrair empregos mas também baratear as produções. Apesar de alguns avanços, nada de fato aconteceu.

Estamos num mês em que as lojas e empresas já começam a se preparar para o natal e há vários lançamentos chegando… como alguns telefones com um custo de mais de R$ 3mil. Esse é um preço impraticável mesmo para quem ganha muito. Ao que parece, o Brasil vem reproduzindo o mesmo cenário de Medellín no tocante à margem de lucro de eletroeletrônicos de uma maneira geral: parece que produzimos com um preço para vender aos turistas endinheirados que nos visitam…. OPA! Mas esses turistas já tem esses aparelhos – e por um preço bem mais justo.

5 responses »

  1. SaiDaqui! says:

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