Campânia é uma região localizada ao sul da Itália que tem como capital Nápoles. Estrategicamente situada, possui uma baía razoável e é um atrativo para muitos turistas. Em Campânia há o porto que detém a maior movimentação em volume de todo mundo: cerca de 30 milhões de toneladas/ano. Todavia, apesar da imensa prosperidade, Campânia é uma região extremamente pobre (se comparada ao padrão europeu geral) e sua capital – Nápoles – como sendo uma das mais violentas em toda Europa.

Num território desconsiderado pelo governo e tido como de “má reputação” por causa de sua pobreza flagrante surge uma organização que atualmente tem mais poder no mundo: a Camorra. Aos que desconhecem sua história, um breve relato: a Camorra é uma organização mafiosa surgida nos anos 80 à sombra dos atentados da Cosa Nostra (outra organização mafiosa italiana).  Reestruturada num modelo pós-fordiano, expandiu-se a ponto de fazer de Nápoles a sua base de operações, uma espécie de escritório, tendo suas principais operações concentradas fora da própria cidade. Segundo o repórter Roberto Saviano, autor de Gomorra:

“Nunca tivemos uma presença tão marcante e esmagadora dos negócios ilegais na vida econômica de um território como nos últimos dez anos, no território da Campânia. Os clãs da Camorra não precisam de políticos como os grupos de mafiosos sicilianos. São os políticos que tem a extrema necessidade do Sistema.” (p.62, Bertrand Brasil – grifos meus)

A partir desse trecho é clara a situação dessa região italiana com os grupos mafiosos: há uma espécie de parceria, um conluio que os une com as estruturas governamentais e formam uma “entidade” só. A Camorra está tão infiltrada no governo italiano que em algumas regiões é quase impossível dissociá-los; cabe ressaltar que até o premier, senhor Silvio Berllusconi, mantêm fortes relações com alguns clãs camorristas.

Entretanto estamos no Brasil: terra de sol, mar, carnaval, futebol e… bem, em 2014, tempo de Copa do Mundo. Independente de você ou eu apreciarmos o futebol, sabemos que esse evento carrega consigo uma gama obras que podem ou não agregar valores para nós. Eu questiono essa agregação de valores pelo vídeo que me foi enviado essa semana sobre as obras do Rio de Janeiro. Ao final deste artigo deixarei o trecho disponível a vocês.

O vídeo em pauta refere-se às obras que vêm ocorrendo no Rio de Janeiro como também a ocupação das favelas por UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Trata-se de uma produção independente, chamada “Domínio Público” que traz à baila a visão de quem está dentro das favelas e também acompanhando as obras cariocas. Neste documentário há um apanhado daquilo que você não vai ver nas mídias em geral por um simples motivo: não interessa.

Utilizando argumentos dos moradores locais, resistências organizadas, líderes e alguns pensadores o Coletivo Paêbiú (que está à frente deste documentário) vai coletando depoimentos que, unidos no doc nos apresentam um cenário que, infelizmente, é bem similar ao descrito por Roberto Saviano.

Há um depoimento corajoso do Deputado Romário (sim, o ex-jogador de futebol e provavelmente o único político que aborda a realidade da situação) no qual o mesmo afirma que “obras estão sendo atrasadas propositalmente a fim de enriquecer políticos, empreiteiras e milícias”. Junte-se a isso a fala de outros pensadores (que também estão no filme) que citam a ocupação das favelas pelas UPPs como uma reorganização da cidade através da força militar na qual o cidadão pobre perde o direito mais básico – moradia – seja por ser considerado “suspeito” seja pela relação que os policiais das UPPs têm com governantes e empresários.

Outra situação que merece destaque é a dispensa sistemática de licitações que as obras para a Copa de 2014 sofreram nos territórios cariocas: nota-se SEMPRE as mesmas empresas coordenando as empreitadas. Obviamente que estão financiando interesses políticos e obviamente que estão sendo financiadas pelo dinheiro público.

Existem ainda muitos outros detalhes os quais somente assistindo o documentário podemos notar e refletir: desde a forçada tentativa de desocupação em massa até trechos de gente “muito importante” falando maravilhas sobre o que está acontecendo. Vale ressaltar que ele está no Catarse e precisa da sua ajuda para se concretizar:

Depois da minha pequena explanação e do trecho acima convido vocês, meus leitores, a pensarem sobre uma outra ótica os acontecimentos do Estado do Rio de Janeiro; afinal, tudo o que ocorre ali me parece um grande reflexo do que Saviano descreve em seu livro, escrito há mais de 6 anos – ressalte-se.

Claro que virão os “dedos apontados” alegando que estou sendo fatalista, extremamente crítica, etc. Contudo e infelizmente, acredito que não. Olho para o Rio de Janeiro e consigo vislumbrar Campânia; assim como olho para determinados pontos de São Paulo e vejo a mesma situação. Aos que refutam que é “impossível pois tanto São Paulo quanto o Rio de Janeiro são estados ricos se comparados à muitos outros no Brasil e a região italiana é pobre” apenas faço a ressalva de que Campânia permanece pobre hoje devido à interesses políticos e empresariais assim como alguns lugares de São Paulo e do Rio. É fato que o caos no qual se encontram todos os sistemas públicos cariocas não é culpa exclusiva do senhor Eduardo Paes, porém seu interesse em perpetuá-lo e fazer desse mesmo caos uma plataforma midiática para se promover deve ser levado em consideração.

Não sei ao certo quem está por trás de todo esse jogo de interesses político-empresariais. Mas vejo as mesmas empreiteiras, os mesmos políticos, os mesmos policiais: nos mesmos canais, com os mesmos discursos. Não se esqueça que negligenciar os fatos incorre no agravamento do problema. E sim, o estado do Rio é de Campânia e todos se alimentam do sistema.

5 responses »

  1. […] eletrônica Podcast #114 – Sons of Anarchy Editorial de Halloween com Makeup de Cinema Rio de Campânia Senta aqui, vamos falar de amor Tem graça amar tanto ou […]

  2. […] Feed By Frames – Rio de Campânia Do Que Os Gays Gostam – Ibiza, o paraíso da música eletrônica Bacon Frito – Estréias da semana – 02/11 Uarevaa – Podcast #114 – Sons of Anarchy Sai Daqui – Senta aqui, vamos falar de amor Manual das Encalhadas – #VídeoNovo da @DraDoAmor: “Toda mulher é uma vadia” Tem Graça ou Não – O que vem debaixo não me atinge Apimente-me – As mulheres traem mais do que os homens […]

  3. SaiDaqui! says:

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