Até hoje pela manhã discutia com um amigo meu sobre tabus na sociedade na qual estamos inseridos. Independente da abordagem e do assunto, acabávamos retornando ao ponto de partida: “maldade”. Apesar de todos os estudos e teses já realizados até o momento um grande tabu dentro da própria sociedade é, ao que parece, encarar com naturalidade o mal e desvinculá-lo de qualquer raiz religiosa. A própria definição de “mal” no dicionário (que é a mesma na Wikipédia) é arraigada a signos religiosos. Observe:

A ideia de mal geralmente se refere a tudo aquilo que não é desejável ou que deve ser destruído. O mal está no vício, em oposição à virtude.

Em muitas culturas, é o termo usado para descrever atos ou pensamentos que são contrários a alguma religião em particular, e pode haver a crença de que o mal é uma força ativa e muitas vezes personificada na figura de uma entidade como o diabo Satanás ou Arimã. Em outras culturas menos conhecidas, o termo é utilizado para designar o Feudo du Mal.” (fonte: Wikipedia)

Como não há outro parâmetro para trabalhar com o mal – de uma maneira autônoma aos aspectos religiosos – eu e este meu amigo chegamos à conclusão de que aceitar o mal como algo inerente ao ser humano não existe (em especial se dissertarmos em países com formação latina) porque se sua definição se fundamenta na religiosidade automaticamente ele (o mal) é excluído da dia a dia, já que se apresenta como uma espécie de não-parâmetro; algo que deve ser finalizado, deixado de lado, etc.

Finalizada essa discussão, entro no meu facebook e uma bomba se apresenta: duas pessoas manifestando sua indignação com as mortes que têm ocorrido em São Paulo pregavam a revolta de uma maneira extrema: o extermínio dos presos – todos os presos. Obviamente que não pude deixar de opinar tentando observar o que se passava na cabeça dessas pessoas ao proferirem algo tão radical: tentava desconstruir argumentos com base em dados, estatísticas, estudos, teses, etc. Mas não adiantava, o radicalismo cega tanto as pessoas que as mesmas perdem seu poder de raciocínio chegando ao ponto de afirmar “às cucuías esse pessoal dos Direitos Humanos!”. Eu afirmei na hora que essa frase era “um tiro no pé”. Mas estava errada. É, na verdade, um tiro na cabeça.

Antes que eu comece com minhas elucubrações, vamos explicar a situação atual de São Paulo: é já sabido que nesse estado (assim como em outros) existem facções criminais violentas que, infelizmente, têm tomado um vulto grandioso em suas ações violentas. Esses ataques não são novidade; apenas se intensificam ou de “diluem” no passar dos meses. Desde 2006, ano em que a primeira onda expressiva de violência ocorreu em São Paulo a base governamental do estado é a mesma: PSDB. Eles sabem da existência do PCC (o Primeiro Comando da Capital) como também sabem que a tentativa de separar o núcleo foi a ação mais furada que já ocorreu. Apesar da base governista negar veementemente o fortalecimento do núcleo criminoso e até se negar a dizer a sigla “PCC” em público (bem como fazem as emissoras de televisão) é consenso afirmar que essa divisão feita pelo governo apenas espalhou o núcleo criando outros diminutos núcleos que cresceram numa progressão aritmética visceral. Fora esse problema, que já é grande, nos últimos quatro meses todos os dias os veículos de comunicação têm noticiado mortes de policiais. Estes cidadãos, que já arriscam a vida na própria profissão, têm sido vítimas de maneira cruel e covarde de assassinos profissionais: pois eles morrem fora de serviço, com tiros direcionados, quando não pelas costas.

Todos os dias, em lugares distantes policiais são mortos assim. O fato já é lamentável por si só, mas ainda há incrementos: o governo paulista negou durante 90% do tempo que estes ataques tinham relação com o PCC e custou a aceitar a ajuda federal armada. Também, durante as eleições para prefeito este fato não foi comentado (por nenhum candidato, ressalte-se!) e, tampouco alguma atitude foi tomada. Ninguém sabe ao certo (fora o próprio Estado de São Paulo) quantas foram as baixas em nossas polícias; sabe-se apenas que foram muitas… eu estimaria em quase 100. Lamentável, no mínimo.

Claro que não gostamos de ver trabalhadores sendo mortos sem motivo aparente e isso nos revolta. Como também nos revoltamos ao nos depararmos com governantes apáticos diante das câmeras mas com intenções perversas ao realizar este desserviço deixando que essas matanças ocorram. Neste ponto do texto é que algum leitor mais desavisado pode se chocar e se perguntar “mas eles sabiam e deixaram acontecer?! Oh, que horror!”. Sim caro leitor, o horror, o horror como em McBeth, uma das principais tragédias de Shakespeare. Todavia não estamos no teatro, mas sim no mundo real onde pessoas estão sendo mortas à custa de uma estratégia política inominável.

Ao contrário do que imaginei, quando lancei essa deixa na discussão ninguém rebateu meus dizeres com frases do tipo “ah Camila, mas isso é teoria da conspiração” ou “ah…você está imaginando coisas”. Quanto à questão política todos estavam muito cientes do que está acontecendo assim como sabem que nossa política se articula SEMPRE em proveito próprio – em que outro país políticos instituem uma jornada de trabalho de três dias APENAS PARA ELES?! (só para citar algo mais leve). Menos mau. Mas, voltando à frase que desencadeou todo esse artigo, quando pessoas que têm um certo padrão de vida razoável, que são conscientes da política podre que seu país tem, que possuem instrução e não apresentam (ao menos aparentemente) um desvio de conduta grave cospem frases que destroem conceitos-bases, como Direito Humanos e o extermínio de presos, o que pensar?!

Como muito bem afirmou um outro participante da discussão, afirmar tal coisa beira o fascismo. Aliás, qualquer conduta extremista sempre beira o fascismo. Me utilizo desta palavra e não de outra exatamente por que o fascismo não mais é que:

uma corrente prática da política que ocorreu na Itália, opondo-se aos diversos  liberalismos, socialismos e democracias. Surgiu no período entre guerras, e abriu caminhos para o surgimento de diversos outros movimentos e regimes de extrema direita.

A palavra fascismo com o tempo foi associada a qualquer sistema de governo que, de maneira semelhante ao de Benito Mussolini, exalta os homens e usa modernas técnicas de propaganda e censura, fazendo uma severa arregimentação econômica, social e cultural, sustentando-se no nacionalismo e em alguns casos até na xenofobia, privilegiando os nascidos no próprio país, apresentando uma certa apatia ou indiferença para com os imigrantes.” (fonte: Wikipédia)

 

E nestes termos podemos substituir “imigrantes” por qualquer outra palavra: pobres ou presos, por exemplo. A frase encaixa-se perfeitamente. Cabe ressaltar que as pessoas que foram apontadas como “tendo um comportamento fascista” não negaram o fato e se quer o discutiram. Todavia, mais que um apontamento, este registro oculta uma vertente mais perversa no ser humano: capacidade de lidar com o mal.

[continua na próxima semana]

6 responses »

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  6. Eu penso que o mal é algo que será definido por cada cultura, por cada pessoa de maneiras diferentes. O que é bom para você, pode ser algo mal para mim. Eu não consigo, apesar de tentar diversas vezes, desvincular a ideia de mal de conceitos religiosos. Para mim, o mal vem da religião. Ele é gerado por ela. Eu cresci em uma família cristã-católica, então, tudo o que eu entendi como “mal” era o que era contra a Igreja e o Vaticano. Eles determinavam o que era o mal. Minha família tornou-se protestante e então, os conceitos do que era mal mudaram um pouco, mas, ainda tem-se a ideia de que é a Igreja e os líderes religiosos que determinam o que é o mal.

    Como eu consegui me libertar dessas correntes, literalmente, tento ver o mal de um ponto, digamos científico. Mais acadêmico. Social, talvez, com a ajuda do bom senso. O mal para mim é tudo o que causa dor (seja física ou emocional), que causa algum trauma psicológico, por exemplo. O que te faz chorar a noite inteira, o que te faz ficar sem comer, ou com vontade de se isolar ou até morrer. Isso para mim é o mal.

    Sobre os direitos humanos, eu ouço muito isso. Alguns familiares dizem que se todo o preso fosse morto, viveríamos em um país melhor, pois, aquilo serviria de alerta para os demais. Talvez. Francamente nunca pare para pensar sobre isso. Entretanto, sou uma pessoa muito humanista (creio eu) e acho abominável que isso aconteça. No entanto, confesso que existem algumas pessoas que eu realmente gostaria que fosse decretada sentença de morte, tamanha a destruição e dor causadas (mal).

    As pessoas ficam revoltadas com os direitos humanos, pois, colocam em uma balança produtos totalmente diferentes. Seria como por uma pena de galinha de um lado, e um búfalo do outro. Eles acreditam que os direitos humanos só funcionem para as pessoas presas, sobretudo com um cenário caótico como o que estamos vivendo em São Paulo. Mais de cem policiais mortos, até o momento. Onde estão os direitos humanos agora?, em contrapartida lemos “Direitos Humanos interfere em presídio…”.

    Por favor, entenda que eu não estou dizendo que apoio ou não apoio. Estou tentando apenas formular um pensamento, onde possamos entender as pessoas citadas em seu texto.

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