Agora preste atenção ao trecho abaixo:

“Nós vivíamos com o Estado (…) nós já tínhamos superado esta visão, queríamos conviver com o Estado. Se alguém no Estado se tornava um obstáculo, encontrávamos outro disposto a nos favorecer. Se era um político, não votávamos nele, se era alguém das instituições, encontrava-se um modo de dar-lhe a volta.” (SAVIANO, Roberto. Gomorra, p. 222 – Bertrand Brasil/7ªed)

Esta é a fala de um mafioso arrependido, Carmine Schiavone, quando denunciou o modo dos negócios de um clã italiano de Casalesi. Ele traduz claramente como a dinâmica do poder “paralelo” mafioso age com relação ao Estado: os mafiosos italianos não veem o Estado como um inimigo para se derrubar, combater, ao contrário, como a máfia transita entre os mundos dos negócios lícitos e ilícitos o Estado é algo que “participa” desse ciclo. Cabe ressaltar que a maioria dos mafiosos atualmente se enxerga como “empresários” e não como criminosos de fato; o que corrobora para uma investida a favor do Estado e não contra.

E o que o cenário político nacional tem a ver com o filme Matrix e os mafiosos italianos?!

Quando os convidei para deixar de lado de lado o mensalão é apenas porque o que liga esses três pontos díspares é mais abrangente. Vejamos: embora (até onde se saiba) não habitemos uma realidade totalmente holográfica, acredito que vivemos realidades sobrepostas. A meu ver, existe uma espécie de realidade emulada – pela mídia, pelo judiciário, grandes empresários, etc – que é a que nos transparece sob nossos olhares, todos os dias e uma outra realidade camuflada – na qual passam os verdadeiros jogos de poder e onde as estratégias e dinâmicas dos reais comandos mundiais não são só traçadas mas efetivadas. Obviamente que já sei que muitos dirão que estou na verdade realizando uma “tentativa de teoria da conspiração”, “que uma realidade sobrepondo a outra não é possível”, etc. Contudo, eu insisto nessa máxima e afirmo que essas realidades, assim como no filme Matrix, são sobrepostas e não paralelas. Mesmo porque, para a realidade ser paralela (como um “poder paralelo”) ela deveria ter como objetivo competir e excluir a realidade, digamos, dominante. Mas não é o caso. Creio que, novamente como em Matrix, a realidade que está “camuflada” depende totalmente da realidade emulada para existir.

Tomemos um exemplo mais concreto: da mesma forma que Carmine Schiavone confessa que os clãs mafiosos modernos não possuem uma proposta de combater o Estado, se observarmos as ações do judiciário e da mídia em geral com relação ao desvio de verbas públicas é consonante com esse não-combate. Apesar de muito alarde, de muitas outras notícias e denúncias quando se trata de pressionar a devolução desse dinheiro as letras se apagam e as vozes silenciam-se. Independente de qual seja o caso em tela, um mensalão, um secretário da prefeitura que em duas gestões adquiriu mais de 800 imóveis de alto-padrão, Rosimeire, PC Farias (lembrão-se?!) ou Carlos Cachoeira, nós somos especialistas em apontar dedos com firmeza e condená-los pelos atos ilícitos praticados (o que está correto) mas parecemos completos tolos diante da impossibilidade de pressionar os poderes legislativo e judiciário para que este dinheiro seja repatriado. Citando novamente Saviano, mas agora num trecho referente à prática de guerras:

“Arkan pediu armas para seus guerrilheiros, e, sobretudo, a possibilidade de contornar o embargo imposto à Sérvia fazendo entrar capitais e armas sob forma de ajuda humanitária: hospitais de campanha, medicamentos e equipamentos médicos. Entretanto, segundo o SISMI, o fornecimento – no valor total superior a dezenas de milhões de dólares – era pago, na verdade, pela Sérvia, mediante retiradas do próprio depósito junto a um banco austríaco (…) Aquele dinheiro era, então, depositado para um dos aliados dos clãs sérvios da Campânia, que deveriam providenciar o pedido a várias indústrias interessadas nos bens para doar como ajuda humanitária, pagando com dinheiro proveniente de atividades ilícitas e promovendo assim a reciclagem de seus capitais.” (SAVIANO, Roberto. Gomorra, p. 216 – Bertrand Brasil/ 7ª Ed)

De certo o Brasil não está em guerra, mas a dinâmica mostrada neste trecho é a mesma aplicável em qualquer procedimento de desvio/ lavagem de dinheiro. Quem desvia dinheiro geralmente o faz para uso próprio e quer que ele volte para ser utilizado. O dinheiro que nossos políticos desviam não ficam “para sempre” em paraísos fiscais; seria uma ingenuidade pensar assim.

[continua…]

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