O mundo é feito de comunicação.

Temática irrevogável para impulso da humanidade, a comunicação perpassa diversos meios para integrar as pessoas e fazê-las interagir. Todavia, por mais que os lingüistas contemporâneos tentem formular teses sobre a unidade da comunicação (teoria amplamente explorada pelo russo Bakhtin) todos que estudam o tema sabem que essa unidade é, na realidade, utópica: de fato escrita e fala apontam para o mesmo significante mas cada uma tangendo por um significado distinto – dependendo do que se pretende atingir.

Ainda citando Bakhtin, podemos afirmar que:

“na realidade toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros.” (BAKHTIN, Marxismo e Filosofia da Linguagem, São Paulo: Huccitec, 1999)

Dessa maneira percebe-se que a linguagem entendida como produto da fala está diretamente relacionada à ponte que o falante e seu interlocutor (ou seja, aquele que escuta e dialoga) estabelecem naquele momento específico. A fala compreende aspectos que a linguagem escrita, por sua vez, afasta, quando esta se manifesta formalmente. Já que, ao escrever geralmente tomamos como base o texto formal, aquele que nos mune para a retórica, aprendido nas gramáticas com suas infinitas regras; o dito “inscrito na História”.

Porém, cabe ressaltar que a fala também é nutrida pela historicidade dos falantes; impossível não ser. Sabe-se que fala é sempre o resultado de um processamento dialógico que está para além da relação falante-interlocutor: ela se inscreve antes na relação falante e experiência de vida.

Tomemos como exemplo a língua portuguesa. Sendo uma língua ativa e com grafia podemos tornar as teorias bakhtinianas mais próximas à realidade. A grafia do português utilizado no Brasil provém de inúmeras adaptações dos latinismos que originaram a nossa matriz lusitana bem como de influências de outros povos que habitaram nossas terras. Ainda assim o português escrito afasta a relação que a fala realiza: ele, por sua forma de expressão, inviabiliza qualquer dialogismo entre as palavras e os leitores – apesar de viva é considerada uma parte estática da língua porque visa elevar o texto, de uma maneira geral, acima de seus leitores. A escrita é necessária para estabelecer um padrão “universal” de comunicação, muito embora nem sempre esse padrão comunicacional seja atingido.

Já a fala é sempre considerada a língua em movimento; ela se transforma e se ajusta à medida de seus falantes. A fala transcende o código escrito pois integra ou afasta as pessoas do diálogo conforme as palavras/expressões são utilizadas no diálogo. Ela ainda é capaz de realizar referências, apontar grupos, e equalizar as gradações que a língua possui dependendo de que fala.

Um exemplo básico dessa diferença pode ser expressa na frase:

“Boa tarde, como você está?!” (português grafado – formal)

“Boa tarde, como você tá?!” (português falado – considerado informal pela corruptela)

“Tarde, como ‘cê tá?!” (português falado – considerado informal pela forma de expressão)

As três frases acima exprimem a mesma mensagem: a ânsia do falante em estabelecer contato e obter uma resposta à sua pergunta. Todavia observa-se que há – de fato – uma aproximação maior dos falantes quando dialogam do que se apenas lessem a oração grafada. Dessa maneira, pode-se concluir que a fala e grafia são elementos intrínsecos e dialógicos: uma jamais pode excluir o outro.

No caso da língua portuguesa (e quase de qualquer outra língua) sabe-se que a utilização da escrita serve para estabelecer um padrão para a comunicabilidade; teoricamente abrangente à todos que lêem, enquanto o português falado serve à integração e à efetivação da mensagem.

5 responses »

  1. mulhervitrola says:

    Agora, imagina conseguir transmitir através de palavra (escrita) o que de fato queremos passar? Não que seja impossível, mas é um eterno dilema…

    • Rê, acredito que este seja de fato o trabalho mais difícil uma vez que na escrita – que é inerte enquanto letra – as opiniões pessoais acabam se mesclando às palavras do texto. Existem um sem-número de observações e pontos de vista que não necessariamente compactuam com a opinião primária e/ou intenção de quem escrever o texto.

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  4. SaiDaqui! says:

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