Nota de Esclarecimento:

Escrever sempre foi {e sempre será} a minha grande paixão. Tenho uma série de contos escritos e não publicados e alguns poucos que publiquei láááá no ano distante de 2010 e que parei por um motivo óbvio – falta de tempo {e outras coisinhas mais}. Todavia, hoje eu estava relendo um desses contos e quis muito, mas muito dividi-lo aqui, com vocês. Gostaria também, se possível, um feedback. E, caso vocês gostem mesmo, eu juro – de verdade – que arranjarei tempo para voltar a escrever {como se deve}.

O conto “Alma Coxa” foi publicado originalmente em 29/10/2010. Espero que gostem😉

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ALMA COXA

Eram tardes terrosas àquelas em que crianças brincavam em frente ao antigo cemitério da vila. Escondido pelos tapumes e gradis, Damião, último servente e morador vivo do local, espiava ao longe as pequeninas almas a gritarem felicidades. Todos os dias assim, desde que voltara da guerra: olho vazado de bala, sem uma parte da língua e completamente coxo – rangendo em passos completos por pedaços de pau. Sem emprego que lhe coubesse à horrenda estética, o regimento encostara o pobre à última morada: e lá ficara no cargo de despachar mortos aos respectivos lares. Entretanto ainda eram tempos de guerra e, com a cidade evadida pelo medo, as visitas campais foram rareando… rareando… até sobrar somente o pó a se aconchegar em regaços santos. Ainda assim, para as crianças, aqueles eram tempos de paz: sem escolas ou pais, futeboleavam toda tarde ali.
Damião jamais abandonara seu posto desde o encaminho regimental. Ausente de família e amigos, quando as visitas aos mortos cessaram de vez, encerrou à chave ao cadeado e voltou as costas para o pequeníssimo povoado. Sua total abstinência para com o mundo fizera brotar uma série de lendas a respeito do que o mantinha ali: uns diziam que vendia ossos para magia negra; outros, que raptava mulher bonita; os mais antigos iam além: afirmavam que Damião voltara rico da guerra e que o cemitério abandonado era guardião dessa calada fortuna. Bruxo ou não o fato inexplicável era saber o que sustinha homem e gatos por detrás daqueles muros.
Mesmo que possuidor de triste reflexo sempre havia a curiosidade pululante das mulheres sobre sua vida: fora casado? fora bonito? seria mesmo rico? Todavia sua abstinência em palavrear junto ao silêncio dos outros velhos era o inflar do mito desse coxo – que agora dera para assustar criancinhas.
Mas havia Jocasta.
Última das meninas ainda criança não vira os tempos de guerra e fome e, assim sendo, tampouco crescera em medos de nada e ninguém. Dia incerto, brincando de perseguir a gata que rondava a casa, viu a bichana desaparecer por estes muros babilônicos. Hesitou instantes ao lembrar da mãe, falando, não entre naquele lugar! Se entrar, o coxo te pega!… mas a gata Azarada (assim dita pela mãe) ronronava convites; Jocasta deu de ombros e adentrou a fresta. Chofre: vira lá dentro prelúdio macabro do devir: campas abertas, terra profanada, crânios em descanso no regaço de anjos. Ao chão, a gata seguia pelo caminho de ossos que conduziam ao confim local.
Dotada de ingênuas curiosidades a menina optara seguir em frente até deparar-se em surreal túnel. O instinto mandara cautelas mas havia uma estranha luz naquele fim de tudo. Olhos infantis percorreram a gruta e levaram – menina e passos – para seu interior. Apanhara o toco de vela preta acesa ao chão para toda aquela luz retinir em seus olhos: milhares de pequenos pontos preciosos tilintando verde, azul, vermelho, dourado… então era verdade? verdade o tesouro? Jocasta a espremer corpo contra gata de tanta felicidade. Mamãe vai ficar rica e eu vou ter um quarto só para mim, piscava o pensamento enquanto cutucava umas pedras à parede. E, como todo ser humano só é o que pode ser, a menina queria arrancar de lá a maior e mais brilhante pedra. Quando tentou puxar, percebeu o horrível: assim como a maça serve ao porco, a pedra ia incrustada à boca de um crânio. Afastou-se num arrepio torto e, virando sobre si, notara todas as esqueléticas faces infantis ostentando riquezas. Quis fugir mas era tarde. Taque-taque-taque. Viu a face dantesca de Damião assoprar vela em tranco violento: súbito falsear para subir balançando milhares de pedrinhas sanguíneas que rolavam de sua boca. Uma lágrima oca espargiu o chão; lá fora o mito. Mais um troféu para o coxo.

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