‘Guarda os pulsos pro final.’
– Pitty
     O verão era carioca e Penha descia o morro em direção à praia. Corpinho lúbrico em pequeníssimo biquini. Posto 9: liberdade e fama. Deitada na areia, fingia ver qualquer coisa atrás dos óculos escuros mas, gostava mesmo era de ser – silhueta e mar – perdida nos olhos alheios. Boquinha de todos os sorrisos, oferecia massagens à preços módicos para gringos. Sempre assim: um sorrisito, uma beliscadela e – bling bling – o troquinho entrando.
Era uma garota toda pequenita, a Penha: apreciada pelas formas de volúpia aprisionadas num tamanho quase infantil. Sempre com o pé na areia, crescera sem a necessidade de muitas roupas: biquini que serve à praia também serve ao samba. Ia vivendo à gaita, sem muitos amores ou ardores quando aquele repórter apareceu. Como os ventos antigos também dizem dos amores opostos, ele era todo seu contrário: homenzarrão alto, forte, loiro-do-olho-azul e completamente desbotado. Penha não sabe mas o que vira no moço não era paixão: fora a necessidade da alvura de roupa branca que jamais tivera. Deu dois passos e o repórter:
– É você a moça da massagem?
Fez um aceno de cabeça e só viu o descasear dos botões. A brancura era tanta que Penha tinha medo de tocar. Encolheu as mãos e, com todos os tatos de gata, foi apertando aqui, maleando ali e a hora passou. Uma nota de cem voara do bolso e ele se foi em sorrisos de cartão de visita premium.
Findo o dia, regressara a casa estonteada pela carne tocada: brancor de hóstia sagrada. O coração, vermelho, aos saltos – amor, amor. Ela que jamais ligara para política abandonou o samba da noite para arfar confetes e serpentinas naquela imagem televisiva. Amor, amor.
     Mas o que todo carioca sempre sabe é que noite da orla pia e respinga um milhão de outras historietas. Então, dia não muito distante deste, Penha encostada num arco da Lapa a observar boêmia televisão num bar de sinuca. A alvura vem e vai segundo a maré dos pensamentos brancos da singela quando, surgido entre as fumaças, vem seu repórter branquíssimo: dessa vez acompanhado de moça. Um muxoxo terrível e a baba do quiabo a fermentar debaixo da língua-Penha: aquilo sim era dor.
     A pequena que subia em etílicos eflúvios ao lado do repórter era socialite filha de político: um daqueles conjuntos atriz-modelo-carreirista social ou, como diria o anjo – bonitinha, mas (muito) ordinária. Não que a moça fosse má – isso não – só que sua maior dotação era o óbvio ululante. Fazia sua relevância na companhia da relevância dos homens – sempre uma casquinha e um flash. Era ainda graciosa no abrir e fechar de pernas – cheiro de flores – e só.
   Escondera-se no arco. O instantâneo casal evoluía em passos ritimados  em direção à praia. Todos os sorrisos em flashes dissonantes. Acenos. Porém, a sombra rodopiou em vermelho: satisfação.
– Fernandinha!… Esta aí é a melhor massagista de todo Rio…
Penha sem graça invejou a altura dos saltos da moça. Como um paralelepípedo recusava-se ao belisco? Ele esgazeava. Vira no encontro a oportunidade da moça. Leva ela meu bem, ela te paga bem, leva. O olhinho fagueiro do rapaz para as duas abraçadas subindo a rua. Seja delicada mocinha. Sorriu e sumiu com o eclipse da lua.
Canga no chão para a moça fina que se deitara de bruços no meio da quadra: vai, tó trezentos, tô podre. Fora a festança da eleição da abre-alas – faca e bolo e faixa ainda ali. Pequeníssima Penha a tatear as costas da socialite. Assim não! Devagar! Um olho virou e cerziu o luzido relance. Para que parece uma cavala! A mulata verteu lágrima recôntida. Se for assim sua boniteza de nada adianta meu bem… olha as minhas mãos delicadinhas…pequeno aceno – é por elas que eu sou a abre-alas e só por causa delas que eu e o reportereco… Um afogueado rude subiu em Penha. Fernandinha esticada como gata no cio: o repórter-eco-zi-nho… ahhh… Vadia demais. Uma mão no samba e outra no coração do rapaz. Toda em raiva fico é branca. Três gumes zipzipzip. Um aborto horrível aquele. A noite fugia em elipses: crime hediondo; ocultar Fernandinha? Recolhera as mãos separadas do corpo, o resto fez sangrar aos gatos – os pedaços do como? : ao fosso.
Dias vem e vão e Penha agora atendia em Hotéis. Mil noticiários daquela data à perguntarem: Onde está Fernanda? Dissera-se de tudo sobre a moça: fugira com sheik árabe; escondera-se em local distante com homem casado; cansara-se da vida nacional – jamais morrera nas colunas sociais. Vinha cantarolando pelo corredor de carrara para ver o nababo sumir sem contraste. Olhara os olhos azuis, era você que eu sempre quis.
– Visto Fernanda? Sumiu…
– Nunca mais.
Olhou as mãozitas da moça, em volúpias.
– Faço um pedido. Devo?
– Qual?
– Posso chamar-te Fernanda?
– …
– Fernandinha?
– Aí sai mais caro meu bem…
Tudo naquele moço era banco, até os pensamentos, veja só…
Aproveitara-se das mundanas distrações para soerguer de dentro do avental delicadas mãos empalhadas em forma de garra. No sagrado só o profano há de tocar.
– Hum… delecitas de Nandinha…
Nódoas roxas atravessando o espaldar do sudário.
– Mas… mãozinhas frias meu bem… Ah Fernandinha! Morreste foi?
– Acha mesmo?! – oblíquo sorriso – Não te preocupa: já já esquentam você.
[Publicado originalmente no dia 15 de outubro de 2010]

3 responses »

  1. Deka Pimenta says:

    Nunca tinha lido nenhum conto seu, Ca. Mas amei o ritmo da narrativa e senti em seu estilo aquele gostinho ardido dos grandes escritores nacionais. Adorei e estou ansiosa por mais contos =D

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