Dedicado   ao TorradasTostadas.com da querida @ninarocha
 
-Maria, ah Maria, venha cá!
Mas…hesita. – Maria, cadê você menina?! Venha que vai esfriar… Abre um sorriso, corre para outra direção. Abano de cabeça, braços abertos, pés ao chão: corre com liberdade de infância. – Pra esse lado não… Ela segue. Passinhos apressados por isótopos solares pulam nas pedrinhas; aí que calor! – Maria, o bolo… vem cá… Segue as nuvens e tilinta os brinquinhos dourados dados pelo pai: ouro. – Seu pai tá ocupado menina! Vai lá não… E adianta?! Esgueira-se pela casa, pulinhos de gata mimosa. – Vixe… Deixa… Beirou a porta do quarto e lá estava ele: a mão tapando fundo bocas gritantes de seios menárquicos.
Uma lágrima?
Uma, duas várias e a vida se desconjuntando nos pensamentos: mil anos depois a mesma Maria, o mesmo quarto, os móveis aquele homem; mas ele estava fazendo o quê, afinal?! Nada. Ou tudo. Não importa. Quando se vislumbra mil anos à frente, alterados por eventos insignificantes (que dizem ser insignificantes), você se torna nada e tudo – ao mesmo tempo. E veio o medo. Medo dessa proximidade recíproca: era a outra mas…e quando seria ela?! Seria, essa não era uma variável. A constante da vida é ser. Seguiu seu sonho sendo. Uma rimazinha para amenizar. (que) nada. Olhar de paroxismo: a submissão era um prazer? Sim e não. Servir os mais velhos. Constante. Mas…o que é meu é seu?! Multiplicidade de fatores. Todos de risco.
O ritmo aumentara e Maria chorou. Por quê?
Muito se sabe do pouco que se viu e a menina tapou os olhos quando suas lágrimas pararam no mesmo chão que as dela. A verdade doía em pesos exatos; muitos quilos. Se viu anos depois fugida da casa e tendo a sarjeta como residência materna. A mãe fugira há anos. Terminado os efeitos um corpinho arfava um choro minguado no quarto. O homem pingava em satisfações certeiras. Vinte e quatro frames por segundo e uma vida inteira destruída por eles. Piscou para diminuí-los. Uma, duas, três vezes. A visão turvou quando a borboleta bateu asas. Fim. Ali não tinha mais nada. Ela se virou e viu a garrafa de xerez que ele amava. Três passos para um futuro perfeito. Flutuou em direção da matéria escura: sob o queijo para os roedores; agora no xerez. As bolinhas foram entrando e efervescendo devagar: o olhar da gata era de um prazer lânguido. Tapou o vidro quando lhe cerraram mão no pulso: – achei você! Vem pra fazer bolo. A tua irmã faz treze anos amanhã…
O muxoxo contrastava com os largos dentes do pai. A irmã esgueirava-se pelo teto da casa como um fiapo. Os olhares se encontraram e o universo era paralelo. Elas seriam iguais em pouquíssimo tempo. Não. Olho a perpendicular das calças do pai e deu medo. Não. A borboleta bateu suas asas lá fora e voou. Recuou passou à frente:

– Paizinho, toma um gole de xerez.

[Publicado originalmente em: 22 de julho de 2011]

One response »

  1. […] A minha teoria do caos – {um conto} […]

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