Casa. Grande.
Ela: nove anos, miúda, cabelos castanhos da mãe, tímida, retraída, recatada, cercada do mundo, paparicada; quase nada, escutada. Filha única. Muda.
Ele: quase cinquenta, três casamentos, esposa modelo, diretor da multi, grisalho, barbudo, peludo; grandalhão: exibido.
Ela: filha.
Ele: pai.
Ela: pequena-carente, olhos tristes, evasiva, maria-chiquinhas; sempre no quarto.
Ele: altivo olhar-matador, sorridente, enérgico, esgar de tarassilente; sempre no quarto.
Quarto. Dela.
Ela: medo de escuro, (mas) dorme com o escuro, abraça o urso – seu pai.
Ele: gato escaldado, (só) anda no escuro, aprecia carinhos – noturnos.
Ela: repulsa de tudo – chora no escuro: o urso cai.
Ele: afundado entre as pernas – regojiza profundo: beijinho e tchau.
Festa na casa.
Ela: nunca a brincar; não, não vá! – ordem expressa – podem te machucar.
Ele: eleito candidato, sorriso de fato, rodopia para lá e para cá – a noite vai demorar.
Ela: contínua a chorar, noite a vagar. Irriquieta, anda para lá e para cá.
Ele: mais a beber do que a cantar. Cochicha aos cantos, ei, vamos lá, que hoje boto a menina à dançar…
(mas) [Há] Crianças: -Ei guria, não vem brincar, Gato mia, vamos lá? Vamos a luz apagar!…
BLACKOUT.
Fim de festa?
Ele: vagueia o olhar.
Ela: silêncio.
Ele: à escada, devagar, sem luz, começa a falar, gato mia Clarinha…, gato mia…, você não pode escapar.
Ela: (ainda) silêncio.
Ele: ao quarto. Observa. Pequena sombra atrás da cortina. Vai lá.
Ela: uma mãozita ao ombro – Gato mia papai.
Revólver: cano gelado a estalar.
[publicado originalmente em: 08 de outubro de 2010]

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