Segunda-feira e era azul de metileno aquele céu. Vestiu-se para trabalho: início de nova etapa na vida – ao menos foi o que ouvira da chefe de RH. Não, chefe não… gestora. Só que…, qual era mesmo a diferença?! Ah… deixa, sorriu num descer de escadas: saltos à mão. 

   O céu era agora azul cintilante porém, em nuvens; era mais um dia seco: a mente vazia de idéias. Ônibus lotado. Em posição de  artilheiro, um tanto mais alto, se posicionara o homem-bíblia disparando salvações e arrebanhando indulgências à centavos naquela incredulidade claustrofóbica ainda apontando o teto – sob o céu: sempre azul.

   Fugira ao fundo. Salvação? Já fora do coletivo, finalmente, duas horas encolhendo entre corpos. Parara em canto obsoleto – trocar para saltos – e, em passitos angelicais encontrara-se refletida na fachada do prédio – arranha-céu. Diminutava naquela grandeza: ela que sempre estivera em ânsias de ser aeromoça tivera as asas cortadas pelo medo materno: altura não! – e amava as alturas das passarelas. Contudo a vida lhe fizera rasteira surpresa: nascera para ser baixa. Assim, alcançando muito pouco, só conseguira fiar em curso de corte-e-costura.
    Com as portas a se esgotarem ao sétimo andar entrara em sala conduzida para instruir-se em debutar. Deixada em espera, olhara em volta o grande aquário: da enorme janela via-se o rio passar ao fundo de tudo. Em ponto indefinido água e ar deviam se encontrar. Todavia ali não; tudo parecia de uma psicose ampla, lisa e organizada. Nenhum barulho para ser ouvido; jamais. Absorta em sua completude avistara
dragas em frenética movimentação à outra margem do rio: quaisquer coisa vivificante. Derredor de condomínios, casebres e diminutos pontos moventes (seres humanos? mesmo?). Mas os olhos de volta ao rio de cor negro-morto: dragas a recolher abjetos desejos. Às margens: abrindo chagas.

    Toc, toc, toc de uma jovem despida de negros saltos afiados a pegara pelo braço para deslindar ao caminho práticas e políticas funcionais. Cuspia mudezas: sem telefone, sem computador, 44 horas semanais, pouco almoço e banheiro só com unção superior. Acolhendo incidências reparava na bolha vítrea: circunda todo o andar, veja só… crendo pergunta, jovem despida de salto observa:
   – Sim, claro! Vista bonita, não?! Já que ali é seu posto (menção na ponta do anular) poderá olhar o rio sempre que quiser (risadinha histérica)… maravilha, né?! – E saiu com sorrisos de gata parda.
    Lá a própria sorte: maquinário de costura. Um sem fim de máquinas e a terceira ao canto era a sua. Sob luz indireta de cadeira confortável estava, ao fundo, um cidadão empunhando um megafone. Súbito estremecimento: Paaaarrreeeemmm! Berrou a voz metálica. Pausa para as máquinas. Abandonara o conforto do verbo e aparecera em carrancuda pequenez ao crachá:
   – Número 3.819, correto? – afirmativa com a cabeça – Aquele pano preto é teu corte: a linha azul-celeste-esperança é o alinhavo e o arremate. Fui claro?! Mas é claro…
    Saltitou de volta em risinho sórdido. Conforto de tafetá intangível. Dirigiu-se ao posto de serviço sem única palavra: fazenda negra, linha azul. Franziu o cenho para um céu cianótico. Um avião passou por aquela agonia. Segundos depois, novamente, megafone: coooosssttttuuurrreeemmm… já! O claque retilíneo dos pedais semi-moventes. Ela a olhar para fora de si. Mas será possível?! Número 3.8… antes que a voz pétrea redundasse ela enfiou seu agulha no pedal em frenético bambear para a outra agulha cozer. Dor em vão. Saltos que não. Lá fora a draga a retirar entulhos de rio: sonido surdo. Afundara a cabeça para o alinhavado azul: era bonito, aquele palpável azul. A vida cerzindo vãos: a draga cozendo metas. Era bonito. E tudo fazia um barulho igual.

[Publicado Originalmente em 21 de outubro de 2010]

2 responses »

  1. […] Feed by Frames – A Draga, um conto […]

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