“Sabe seu Dotô, eu tô aqui porque faiz é mais de sete dia qui meu marido hômi saiu di casa e eu não posso di vivê sem ele, porque nóis dois tem filho e um negócio pra tocá.” Brotando as palavras com as lágrimas foi assim que Kátia chegou à delegacia. Era verão, um calor sórdido e o ventilador seguia quebrado. Kátia queria o marido mas o delegado preferia o seu abrir e fechar de de pernas com gelo e uisque. A moça era muito nova, ingênua demais para desconfiar de quaisquer olhar: só que era verão, muito calor, as saias subiam e o crime derramava sangue para refrescar as ruas. O delegado ficaria dias só olhando aquele par de pernas roliças e alisando os bigodes, mas o escrivão veio, esbaforido, ao batente:
  – Chefe! Chefe! Quatro traveco desfigurados lá na Áurea! Tão chamando lá chefia! Dizem que um figurão matou mas não sabem nada!
  Ele levantou da mesa um tanto sem brios. Acendeu um cigarro e bateu com os dedos entre as coxas da moça: “não me saia daqui, hein?!”
  A Rua Áurea era, pela fala de todos, “boca do lixo”: famosa por seus travestis de baixo custo e programa fácil. Em frente ao famigerado neon da boate/drive-in/hotel ‘Love Story’ jaziam quatro corpos ambíguos – todos amarrados e com as vísceras de fora. Por causa do calor subia um cheiro dantesco dali. Com um lenço na boca, o delegado chegou mais perto para tentar descobrir alguma coisa. Fora nomeando os corpos das meninas: a maioria delas ia e vinha do D.P. o tempo todo: seja por pequenos furtos, por cliente insatisfeito, por um pouco de pó ou por briga de vizinho quando descobriam que as meninas não eram completamente… ahm… moças de fato. Priscilla, Mary Ann, Roberta Fosse e…, um susto aos desvirar o último corpo: Deusdete! A descoberta deixara o delegado visivelmente confuso, mande vir o rabecão, vou à caça do tirano!
   Diz-se à boca miúda que Deusdete era o travesti mais antigo da boca do lixo. Nas palavras do delegado: estava sempre ali, era dócil, de voz gentil e atos delicados. Seus dotes de brejeira tiravam do armário o mais contido dos homens e seu anúncio debochado anulava qualquer não-intenção de :
           “Deusdete Piriguete. A Rainha do Boquete.”
  Entretanto, da sua vida de verdade, aquela que levava distante do neon rosado do Love Story, quase nada se sabe: casado ou não, filhos ou não, dinheiro ou não; nada. Uma única vez cogitara em lavar o jaleco do serviço:  enfermeiro, talvez. Da nebulosa que envolvia Deusdete só se sabia uma coisa: que atendia figurões e recebia com amor materno estes recém-chegados ao ofício noturno.
  “Impossível ter ódio de uma criatura dessa”, repetia para si mesmo o delegado. O que lhe impingia a mente era o fato de Deusdete jamais abandonar aquele lugarzinho mundano: tanto ele quanto seus clientes tinham pavor do neon berrante e discriminatório das zonas de luxo. Tem que ser muito burro para isso mesmo, balbuciava o delegado, deixando escapar a fumaça da boca.
  O relógio batera quatro horas da manhã quando a viatura estacou no D.P. Para a surpresa do delegado, Kátia ainda estava lá, dormindo na cadeira. “Vamos moça. vá para casa”, disse num sussurro. Mas Kátia irrompeu aos borbotões:
  “Mais moço, qué dizer, Seu Dotô, o sinhô já achô meu marido? Óia, aqui, o retrato dele ó, a cara cumprida assim, assim, assim, essa ciscatriz perto do peito, as intrada di cabelo…olha, falta uma unha no polegar…”
  Tá, tá, tá e foi dando tapinhas no traseiro da moça, agora vamos. Todavia, ela esgazeou os olhos e olha seu Dotô, eu i meu hômi têm crínica di ansilo. Casa di velho. Eu ti pago pro sinhô trazê ele di volta e… só que o delegado já havia encerrado a porta. Ele que nem chegara a pensar nessa coisa miúda de café-e-feira estava mesmo era interessado nas pernas da moça e também em descobrir quem matara Deusdete. Sob aquele eterno sol os dias se arrastavam profundamente e poucas idéias surgiram: a cidade era quente e trabalhar dava preguiça. Contudo, o calor derretendo pistas e cérebros lá fora e quando o rádio dispara: …Atenção… atenção… Prefeito acuado em boate boca do lixo… Love Story… morto mais um travesti na Rua Áurea… Prefeito pego com arma na mão por paparazzi… escândalo… ameaça de renúncia… reféns no quarto… ameaça de matar… nossa redação está a caminho do infortúnio…
  O delegado cortara o calor pelas vazias avenidas da cidade e chegara ao Love Story: novamente a cena do crime. Apartando o apinhado de repórteres locais acabara entrando com alguma ajuda no quarto onde estava o Prefeito. O governante em si era uma triste figura: indefinição de senhor ou senhora, o corpo flácido,  a face rosada e caricata, seus genitais quase infantis. havia um travesti eviscerado, canhestamente atirado ao chão – assim como os anteriores – e, de refém, o fotógrafo bisbilhoteiro que flagrara o ato. Bradava a quem quisesse ouvir que mataria quem invadisse sua privacidade. Mas o delegado, que por hábito comia pelas beiradas da vida, insistia em conversar com o Prefeito. Contudo, todas as coisas já eram mínimas naquele quarto para qualquer ato. Cansado, jogou palavras para para o não-civil enquanto algo se movia atrás de si:
  “Senhor Prefeito Ken Saab, calma. O senhor governante sabe que tem padrinhos e não será preso por nada. Só me diga uma coisa: o senhor matou Deusdete?”
  Tapara os diminutos genitais com a mão e baixou a cabeça: “Por quê”
  Obviamente, como toda figura folclórica nacional, o Prefeito Ken Saab não fora preso, claro, mas convocado a dar explicações sobre o incidente: afinal, como ficaria a próxima candidatura? Ou a base aliada? Quando finalmente instigado pelo coro de jornalistas sobre o “Caso Deusdete” só se podia observar o esgar de ódio salteando os olhos do governante: matei aquela coisa bicha nojenta porque mereceu! Sabia quem eu era!… Onde já se viu … cuidar de velhos e ser travesti?! Os repórteres se entreolhavam, confusos. O prefeito, dedo em riste E eu que dei uma autorização para aquele mixê ter uma casa de idosos…filho da puta! Tirando recursos do Estado!… Eu devia pica-lo em mil pedaços!!! Arrastado por enfermeiros da sala onde estava, o Prefeito Ken Saab babava: coitado, estava completamente louco.
Num outro canto do lugar o delegado fumava balançando a cabeça não, não, não. Nunca está nada resolvido. Ergueu o cenho e vislumbrou Kátia, quinze dias mais velha ao primeiro encontro, cabelos soltos, vestida de verão. Antes que ela falasse qualquer coisa o polícia a pôs dentro do carro direto para o I.M.L.

“Seu marido, Dona Kátia.”
Estendido sobre o gavetão de aço estava um homem de meia-idade em vestes femininas, unhas postiças caídas, peruca suja e descolada, salto quebrado. Ela foi passando a mão pelo corpo e emudecendo a cada toque reconhecido. Toda sua descrição estava lá: a cicatriz perto do peito, as entradas capilares, o rosto indefectível – o absoluto imiscuído num vestido prateado. Pegara ainda a mão direita do defunto e percebera a ausência da verdadeira unha do polegar: simplesmente não era possível. Muitíssimo trêmula, cruzou os braços do defunto em sinal de respeito. Virou-se para o delegado como quem fosse gritar mas não deu tempo: a luz branca e os bigodes engoliram as palavras da moça. O neon fosforescente do lugar deixava o cadáver ainda mais cinza do que poderia ser.

 [publicado originalmente em: 02 de outubro de 2010

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